Do segundo para o décimo quarto

          A Moça do Segundo andar agora é a mulher do décimo quarto. Mudou. Mudou-se. Cresceu. Subiu alguns 20 lances de escada e agora usa o elevador sim. Não tem jeito.

          O silêncio é maior, o bairro é menor. O vizinhos são muitos, mas ela ainda conhece poucos, somente a vizinha de porta.

          A janela da sala foi substituída por uma porta de vidro que se abre para uma varanda de onde ela olha a lua e o planeta Vênus, avista a piscina, as quadras de jogos, o Pão de Açúcar e o bondinho do Morro do Alemão. A visão, assim como o corredor, se ampliou.

          Agora ela tem uma cozinha onde cabem outras pessoas e uma área de serviço, um futuro escritório que funciona no momento como o quarto da bagunça, onde ela coloca tudo o que ainda não ganhou lugar desde a mudança. Dois banheiros e uma suíte e uma vontade imensa de voltar para casa no final do expediente.

          A casa nova é como o vestido novo que toda hora ela quer experimentar, o brinquedo novo que quer brincar. A boneca nova que quer pentear.

          As crianças são muitas na região, e ela já está fazendo amizade com todas. Aqui é assim: as crianças correm livres e emitem suas finas vozinhas em volume alto. E o vento, o vento canta na janela em noites de tempestade.

          Só o tempo, esse ainda está lhe pregando umas peças. É tudo mais longe, mais engarrafamentos que ela já não estava mais acostumada e uma pá de gente que ela já não via. Balança cada hora pendendo para um lado, mas ver as nuvens do chão da sala e poder cultivar um jardim na varanda não tem preço.

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